A pecuária bovina já está contabilizando prejuízos com morte de animais por causa da escassez de vacinas polivalentes contra as clostridioses, um complexo patogênico que engloba doenças como o botulismo, carbúnculo sintomático, gangrena gasosa, infecção por clostridioides e tétano. O problema seria resultado de inconformidades técnicas no processo de inativação bacteriana na produção, que resultou no recolhimento compulsório de lotes e no desabastecimento interno.O reflexo tem sido o aumento da mortalidade de rebanhos em vários estados, como Goiás. Consideradas uma das principais causas de óbito em bovídeos, ovinos e caprinos no Brasil, as clostridioses representam uma ameaça sistêmica e, segundo o Fundo Emergencial para Sanidade Animal em Goiás (Fundepec-GO), a falta de imunização massiva pode acarretar perdas patrimoniais severas, descapitalização do setor produtivo e queda na oferta de proteína animal e lácteos. A pecuarista e presidente do Sindicato Rural de Porangatu, Ana Amélia Paulino, informa que, desde o início do ano, tem sido procurada por produtores que reclamam da falta de vacinas contra clostridioses e influenza equina. Por isso, ela acionou a Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), que entrou em contato com a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) para relatar o problema.Segundo ela, hoje há um déficit de até 50 milhões de doses anuais da vacina polivalente. “A Federação está fazendo a interlocução com agentes das cadeias produtivas, incluindo fornecedores e distribuidores. Também estamos fornecendo informações técnicas aos produtores, visando adequação da conduta dos protocolos sanitários em cenários de restrição pontual de insumos”, relata a pecuarista.O produtor Alexandre dos Reis e Silva, pecuarista no município de Bela Vista de Goiás, conta que o problema já existe há cerca de seis meses e tem impactado sua produção. “Trabalhamos com animais de produção e reprodução e temos um fluxo muito intenso com a compra e venda”, ressalta. Ele acredita que já perdeu entre 7 e 10 animais para a doença, mas acredita que seu prejuízo ainda é pequeno ante o de outros produtores da região.Silva lembra que a doença praticamente não tem tratamento. “A situação é preocupante e não temos sinalização de que as doses irão chegar. Fui a Bela Vista, Goiânia, Silvânia, Vianópolis e só encontrei em Inhumas um volume que não cobre nem 10% do rebanho”, informa. Ele ressalta que o preço de várias vacinas também tem subido muito, o que impacta o custo de produção. A dose contra a raiva passou de R$ 0,30 para mais de R$ 2. Marcelo Penha, analista de mercado pecuário Ifag/Faeg, informa que, em propriedades não vacinadas e expostas a fatores de risco, a prevalência do carbúnculo sintomático pode atingir até 15% dos animais jovens. “Já surtos de gangrena gasosa ou botulismo alimentício têm o potencial de dizimar até 8% de todo o lote de forma extremamente rápida”, alerta. Estudos apontam que o animal frequentemente é encontrado morto no pasto, sem manifestar sinais prévios de adoecimento. A estimativa é que essas enfermidades causem a morte de 400 mil a 500 mil bovinos anualmente no Brasil, um prejuízo financeiro direto superior a R$ 1,1 bilhão por ano.Medidas urgentesO diretor técnico do Fundepec-GO, Antônio Flávio Camilo de Lima, lembra que, historicamente, a vacina da clostridiose era aplicada junto com a da febre aftosa. Segundo ele, as clostridioses têm dez cepas que atingem os bovinos e é uma doença que, em geral, leva à morte, principalmente de animais que nunca foram vacinados. “Quando o bovino já tem uma carga vacinal, tem uma proteção maior. Mas, mesmo o animal adulto, pode perder imunidade ao longo do tempo”, alerta. Camilo lembra que o produtor não tem como remediar essa situação. Por isso, a necessidade da importação de doses. “Precisamos de medidas urgentes para não termos o risco de um prejuízo que não podemos dimensionar, com grande parte do rebanho, independente de região”, adverte. A doença pode ser adquirida de várias formas, pois as bactérias podem estar em qualquer lugar. Para ele, a falta da vacina evidencia o risco permanente de doenças. Ele lembra que Goiás já é livre de febre aftosa sem vacinação, o que ainda requer boa vigilância. “Usamos essa falta atual para chamar atenção para a necessidade de atenção às questões sanitárias, pois um estudo da USP mostrou que um pequeno foco de aftosa em Goiás representaria prejuízo de R$ 3,5 bilhões”, destaca.Bezerros que nunca foram vacinados precisam receber duas doses. No início de maio, o Fundepec-GO enviou um ofício à Superintendência Federal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e à Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) solicitando intervenção. “É coisa que ninguém esperava, mas era preciso estar preparado para a falta de uma vacina tão importante”, alerta o diretor.O motivo para a escassez atual da vacina contra clostridioses teria sido um problema de contaminação na fabricação, o que levou à suspensão de uma parte considerável da produção que atendia o mercado nacional. A falha teria levado alguns animais à morte. A dificuldade do retorno do abastecimento ocorre pela necessidade da realização de adequações nas empresas.O presidente da Agrodefesa, José Ricardo Caixeta, informa que, anualmente, a demanda por vacinas é atualizada junto ao Mapa, que faz a gestão junto ao Sindicato dos Fabricantes e Distribuidores de Medicamentos. “O Mapa retirou as vacinas do mercado para adequações, mas o laboratório pediu falência e o mercado agora passa por readequação”, informa. Um segundo laboratório também teve uma suspensão preventiva por suspeita de produção inadequada. Hoje, outros laboratórios estariam tentando ocupar este espaço, se ajustando para ampliar a produção. Os lotes estão sendo recompostos num ritmo lento, mas há um cronograma de abastecimento que prevê pouco mais de 100 milhões de doses que serão colocadas no mercado. A maioria será produção nacional, mas parte será importada. “A informação que temos hoje é que devem chegar cerca 10 milhões de doses nesta semana, que ainda serão insuficientes para atender o Brasil todo, sendo 1,2 milhão para Goiás”, avisa o presidente da Agrodefesa. Ele confirma que a vacina da influenza equina também está em falta há algum tempo. “Inclusive, suspendemos a exigência do certificado de vacinação para movimentação de equinos e moares”, destaca.A demanda é de 19 milhões de doses anuais. Em nota, o Mapa informou que o atual cenário de desabastecimento de vacinas contra clostridioses decorre, principalmente, de decisões mercadológicas adotadas por fabricantes, que descontinuaram a produção e a comercialização desses imunizantes entre o final de 2025 e janeiro de 2026.“Com o objetivo de mitigar os impactos desse cenário, o Mapa vem atuando junto à indústria de insumos veterinários para estimular a ampliação da fabricação e das importações, bem como para acelerar os procedimentos de fiscalização e liberação das vacinas”, diz a nota. Com as ações emergenciais adotadas, o Ministério liberou, nos meses de março e abril, 14,6 milhões de doses contra clostridioses, entre nacionais e importadas.Além disso, há expectativa de autorização de mais 10 milhões de doses ainda neste mês, reforçando o abastecimento. “O Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) informou que a estimativa é de entrega de até 10 milhões de doses mensais até dezembro, com possibilidade de ampliação no segundo semestre. A projeção é de que possam ser disponibilizadas mais de 100 milhões de doses até o final do ano”, diz o Mapa.