A fila dobrava o corredor da unidade básica ainda antes do sol subir. Cadeiras de plástico rangiam, um ventilador empurrava ar quente e o cheiro de desinfetante tentava vencer o cansaço. Ali, o SUS não aparecia como sigla nem discurso, mas como espera compartilhada entre desconhecidos que dividiam silêncio, dor e alguma esperança. Antes dele, a saúde tinha porteiro. Só entrava quem apresentava carteira assinada e vínculo formal. Quem vivia de bico, roça ou desemprego carregava a doença para casa como quem aceita destino imposto. Hospital não acolhia todos, acolhia alguns, e a exclusão se travestia de normalidade. Até o sangue obedecia essa lógica dura. Circulava como mercadoria, com preço e recibo, distante da ideia de solidariedade. Vida entrava na conta, não no gesto. Quem precisava mais quase sempre tinha menos condições de pagar.