Quando Maria Bethânia foi chamada para iniciar oficialmente sua carreira que já soma mais de 60 anos, ela precisou de companhia. Seus pais, dona Canô e José Teles Veloso, não permitiram que a caçula de uma prole de oito filhos se aventurasse sozinha, com apenas 18 anos de idade, na agitação do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, o convite era irrecusável. A menina nascida em Santo Amaro da Purificação, cidade histórica do Recôncavo Baiano, era convocada para substituir ninguém menos que Nara Leão, musa da bossa nova, no espetáculo Opinião. Ela dividiria o palco com o sambista Zé Keti e o compositor João do Vale no show dirigido por Augusto Boal no antológico Teatro de Arena. Mas havia uma solução: seu irmão Caetano Veloso a acompanharia naquela aventura no início de 1964. Os dois irmãos, certamente, não poderiam imaginar que pouco mais de um mês depois daquela estreia nos palcos cariocas, o Brasil passaria por um terremoto político, que mergulharia o País em uma ditadura militar que duraria mais de 20 anos. Os destinos de ambos estariam entrelaçados com aqueles fatos – Caetano seria censurado, preso e exilado pelo regime ditatorial – e Bethânia seria uma das vozes a manter viva na memória coletiva do público as canções compostas por tantos compositores agredidos pelo arbítrio. Mas quando seu vozeirão ecoou pela primeira vez no palco do Arena, porém, algo mágico também aconteceu. Nascia para a música brasileira uma de suas principais intérpretes, pronta para deixar sua marca indelével com uma voz que parece ser divina.