Nunca antes na história da TV americana houve uma série que expressou tão bem o próprio desespero com o final como "Stranger Things". Com a imagem de um planeta que despenca dos céus em direção à cidade de Hawkins, o derradeiro capítulo levou ao pé da letra a sensação de agonia eterna do público, que viu o programa ser soterrado pelo peso das altas expectativas. Foi uma temporada difícil. Encerrado na virada do ano, o seriado criado pelos irmãos Duffer sofreu com um destempero de ambição no quinto e último ano. A trama apanhou com episódios ao mesmo tempo corridos e arrastados, coroados em um desfecho de duas horas que descambou de vez para o constrangimento —seja de resoluções, de pieguice ou de explicações. Cuidado com os spoilers a partir daqui. O desmoronamento tem a ver com a própria evolução da série durante a década em que esteve no ar. Além de carro-chefe da Netflix, "Stranger Things" foi um dos programas que consolidou o novo modelo de grandes produções televisivas inventado por "Game of Thrones". O seriado cresceu em estrutura e escopo, trocando a intimidade do horror pelo épico recheado de eventos midiáticos.