Lá no nosso bairro, todo mundo conhecia as duas Anas. Gêmeas, filhas da dona Marieta com o seu Zé da Venda. Eram como cópias de espelho: do mesmo tamanho, mesmo cabelo liso repartido ao meio, mesmo sorriso de canto de boca. Mas quem prestasse atenção de verdade percebia logo que, por dentro, cada uma caminhava pra um lado diferente. Ana Carolina era de silêncio e responsabilidade. Já nascida com os pés no chão, desde cedo grudou nos livros. Estudava com vontade, não dava trabalho e, se não era a primeira da turma, estava entre os dez melhores. Dizia que queria ser médica — e foi. Formou-se com louvor, casou-se com um colega de turma, doutor Osvaldo, e construiu com ele uma vida simples, limpa, marcada por afeto, serenidade e rotina. Viveram juntos quarenta anos. E quando ele se foi, numa madrugada mansa, ela chorou sem escândalo, com a dignidade de quem viveu ao lado de alguém que a amou até o fim.