Se a governança pública pode ser compreendida, em termos clássicos, como o conjunto de dispositivos institucionais voltados à regulação da ação estatal, ao controle dos agentes e à produção de responsabilidade (accountability), o episódio conhecido como “caso Moretto” ultrapassa a condição de fato isolado e se inscreve como sintoma de uma disfunção mais ampla. Trata-se, antes, de um indício empírico da possível dissociação entre a existência formal de mecanismos de controle e sua efetividade concreta no interior da estrutura político-administrativa. O registro audiovisual do episódio intensifica essa percepção. A imagem do agente político, com os braços erguidos em gesto celebratório, ao lado do chefe do Executivo estadual, compõe uma cena que não apenas documenta, mas também simboliza uma forma específica de relação com o poder. A menção a valores expressivos — “quase 200 milhões” — e o diálogo subsequente, marcado por uma aparente trivialidade procedimental, não operam como elementos de problematização, mas como parte de uma encenação de normalidade. O extraordinário, nesse contexto, é absorvido pelo cotidiano sem fricção.