Ter assumido compromissos com a delicada questão da desigualdade ao longo de mais de quatro décadas de atuação levou-me a admirar profundamente dois grandes intelectuais da economia, entendida como ciência social: o indiano Amartya Sen e o brasileiro Celso Furtado. Não se trata apenas de reconhecer trajetórias brilhantes, mas de perceber a notável convergência entre seus pensamentos. Ambos estiveram ligados ao ambiente acadêmico de Cambridge, onde a economia era pensada para além dos indicadores formais, como instrumento de compreensão da realidade social. Amartya Sen, laureado com o Prêmio Nobel de Economia, propôs, em Desenvolvimento como Liberdade, que o desenvolvimento consiste na expansão das capacidades humanas. A desigualdade, nesse sentido, manifesta-se quando indivíduos são privados de acesso efetivo à educação, à saúde e às oportunidades. Um exemplo eloquente no Brasil é a disparidade educacional entre regiões: enquanto escolas de centros urbanos mais desenvolvidos apresentam bons indicadores, áreas periféricas e regiões mais pobres ainda enfrentam evasão escolar, infraestrutura precária e baixo desempenho — limitando, desde cedo, as capacidades dos indivíduos.