Recentemente, escutei uma entrevista de um brasileiro residente na Suíça que fez um relato de algo que acontece lá e que soa para nós como inimaginável. Segundo ele, durante as eleições, algumas urnas ficam espalhadas em locais de fácil acesso ao eleitor – edifícios municipais, escolas, centros comunitários - sem fiscalização ostensiva, sem policiais, sem mesários supervisionando cada movimento do eleitor. As pessoas simplesmente comparecem, votam e vão embora. O mais impressionante não é a ausência de controle estatal, mas a inexistência da preocupação com fraude. Culturalmente, para o suíço médio, votar duas vezes sequer é cogitado. Não por medo da punição, mas porque aquilo é simplesmente errado. A narrativa causa estranhamento ao brasileiro. Na situação prática acima, a ausência de fiscalização quase imediatamente despertaria uma pergunta automática: “o que impediria alguém de votar várias vezes, em várias urnas diferentes?”. A diferença entre as duas realidades talvez revele muito mais do que distintos sistemas eleitorais. Evidencia o abismo cultural existente entre sociedades que desenvolveram forte senso coletivo de confiança institucional e outras onde a lógica da vantagem individual frequentemente se sobrepõe à ética e ao senso de retidão.