Estão guardadas em minha memória as lições de um grande mestre que passou por minha vida literária. Falo de Álvaro Catelan.Há coisas que conservamos no íntimo e que, vez por outra, retornam às nossas lembranças em forma de deleite. Dias atrás, em um desses momentos de recolhimento em que estamos a sós com nossos pensamentos, eu descansava na rede da varanda de uma propriedade no Tocantins quando me veio à memória uma conversa que tive com meu mestre Álvaro Catelan sobre literatura. Esse diálogo ocorreu décadas depois de eu ter reencontrado aquele sábio professor em uma academia de ginástica, em Goiânia. Naquela ocasião, Catelan, sempre apaixonado pelos livros e pela arte literária, explicava-me um dos mais belos contos de Machado de Assis: "Uns Braços". Os personagens principais são Inácio, um adolescente de cerca de quinze anos, e Dona Severina, mulher elegante e afetuosa que desperta no jovem uma intensa paixão. A genialidade de Machado de Assis manifesta-se na maneira sutil com que retrata um amor impossível. O sentimento de Inácio nasce da contemplação dos braços de Dona Severina e, a partir deles, sua imaginação constrói uma figura idealizada. O que lhe é ocultado pela realidade é completado pela força da imaginação.