Há um momento na vida em que o espelho deixa de ser apenas reflexo e passa a ser memória. Tenho sentido isso ultimamente. O envelhecimento não chega com alarde; ele se insinua devagar, como a luz do fim da tarde que invade a sala sem pedir licença. Recordo-me dos primeiros anos, quando o corpo era pura energia e o mundo parecia um campo aberto. No Colégio Agostiniano, eu era goleiro de futebol de salão. Não um goleiro qualquer — eu me sentia inexpugnável. Havia algo de heroico em defender um pênalti decisivo, em voar sobre o chão áspero da quadra, em ouvir os gritos da torcida improvisada. Ali, entre traves de ferro e bolas gastas, eu acreditava que o tempo jamais me venceria. Antes disso — ou talvez ao mesmo tempo — vinha a Rua 70, no Bairro Popular, onde moravam meus avós. Descia o asfalto em meu carrinho de rolimã como se pilotasse um bólido de Fórmula 1. O vento no rosto era a própria definição de liberdade. Meus companheiros de aventura, Jurimar Lousa e João Yano, partilhavam daquela infância em que o perigo era apenas parte do jogo e o futuro, uma palavra distante.